De vaidade, culpa e árvores...


Guga,
o texto é seu.
A alma é sua.
E o amor ? *risos*

Sorriso eterno pra ti...

"Ela sabia que aquela árvore era pra sempre.
Aquele pau-ferro já era velho quando ela mudou para a vizinhança.
E mesmo quando ela já se achava menos moça, o pau-ferro era velho.
Grande, imponente. Sábio e resistente. Seguro.
Era para aquela árvore que ela confessava suas inseguranças.
Sentada ao pé do pau-ferro ela aprendeu muito. Monteiro Lobato? Primeira leitura ao pé do Pau-ferro.
Sentada na raiz do pau-ferro ela entendeu, após série de leituras, como tirar raiz quadrada. Parou ali para se aconselhar sobre o primeiro beijo. Sozinha, definiu coisas que ela sabia que longe do pau-ferro não conseguiria. Todas aquelas manchas senis.
Toda aquela sabedoria. Zen. O silêncio daquela árvore ensinou muito sobre o não falar.
Gibi? Pau-ferro presenciou. Até o primeiro beijo. Até o primeiro sexo. Que não foi ali, mas foi ali a angústia pré e o medo pós. Dos três anos, quando se mudou prá lá, só tinha a lembrança de erguer a cabeça até dar tontura para ver o fim daquele sem fim.
Sem saber, era do pau-ferro que teve saudade, quando voltou de Xapuri. Foi pro pau-ferro que ela mostrou, de verdade, que ficar viúva dói demais. Foi pro pau-ferro que ela teve coragem de odiar a Deus. E agradecer, também.
Entrou, em forma de assinatura e RG, energicamente, quando 537 pessoas exigiram o tombamento.
Comprou vinho e patê, brindou o CONDEPHAAT.
Mesmo em Barcelona, o cartão postal pra mãe. Era também pro pau-ferro. Assim como Paris, Berlim, Viena, Londres que ela não foi... O pau-ferro era referência. Cidade bonita, tem grandes árvores...
Curso de paisagismo diletante.
Geografia, vegetação. Didática. Outra vez, saber ficar quieta e saber ensinar através da não palavra.
Cupins. Praga paulistana. Nem madeiras nobres nem pinus de terceira. Cupins famintos. Tombamento garantido. O poder das ciências.
Aqueles cupins comiam décadas de confidências. Milhões de palavras jamais proferidas e sempre ouvidas.
O veredicto do engenheiro agrônomo. Há cura. Processo difícil. Custoso. O pau-ferro sofreria. Mas os cupins ir-se-iam.
Terreno público. Geométrico Viário. Entroncamento de duas ruas não perpendiculares. O trólebus veio vindo, do centro, bairro a bairro, avançando, abrindo uma chaga chamada canaleta.
Calçadas, passeios estreitando-se. O progresso. O transporte público. O voto energizado, eletrificado, em forma de acesso aos pobres.
E a canaleta rasgando bairros, alterando a rubrica de cada bairro, criando vereadores e descaracterizando fachadas, rostos e praças. Chegou ali, naquele geométrico. No pau-ferro.
Ela, na época não morava mais lá. Percebera diferenças inconciliáveis com a mãe. Para poder amá-la, preferiu sair. Não foi testemunha do novo veredicto, do mesmo engenheiro agrônomo.
Laudo sólido, consistente. Incontestável, agora, para o bem da população lindeira, aquela ameaça imponente viria a chão.
E ela foi de trólebus, ironicamente, visitar a mãe, doente. Chorou forte, cada soluço um tranco. Soube da história. Sua irmã a preservou ao máximo do sofrimento.
Olhando a mãe, riu, nervosa e sarcástica. Se um engenheiro agrônomo diagnosticasse sua mãe..."

Guga Gomes, julho de 1999





Procurar com:
palavra:



link different


obrigada!